Episiotomia: O Guia Definitivo Sobre o Corte no Períneo e Como Proteger o Seu Corpo

Resumo Direto — O que você vai encontrar neste guia
A episiotomia — o corte no períneo durante o parto — não é mais recomendada como procedimento de rotina pela OMS, FEBRASGO e ACOG. Quando o obstetra faz esse corte, ele já causa automaticamente uma laceração de grau 2, atingindo a musculatura perineal. Quando o corpo lacera espontaneamente, a maioria das lacerações é de grau 1 — superficial, às vezes sem necessidade de sutura.
Neste guia, eu vou te explicar o que é a episiotomia, por que ela não deve ser rotina, os graus de laceração perineal, como prevenir lacerações com massagem perineal, fisioterapia pélvica e compressas mornas, e — muito importante — o que conversar com o seu obstetra e colocar no seu plano de parto. Você tem direito de decidir sobre o seu corpo, mamãe!
O que é episiotomia e por que ela não é mais recomendada?
Então, gente, a episiotomia é um corte cirúrgico feito na região do períneo — ali entre a vagina e o ânus — durante o momento do parto. Durante muitos anos, esse corte foi feito de forma rotineira, como se fosse obrigatório. Mas a ciência evoluiu, e hoje nós sabemos que não é mais recomendado fazer episiotomia de rotina, tá?
Eu sei que pode parecer assustador falar sobre isso, mas é justamente o contrário: quanto mais você entende, mais segura e confiante você se sente. E esse é o meu objetivo com este guia — te dar o conhecimento para que você se sinta dona do seu corpo e do seu parto.
O que dizem as principais autoridades médicas
- OMS (2018): Recomenda que a episiotomia NÃO seja realizada rotineiramente em partos vaginais espontâneos.
- FEBRASGO: A episiotomia seletiva é preferível à episiotomia de rotina — reduz o trauma perineal severo.
- ACOG (2016, reafirmado): A episiotomia restrita (seletiva) apresenta melhores resultados do que a rotineira.
- Cochrane (Jiang et al., 2017): Revisão com 12 ensaios clínicos confirma benefícios da política restritiva.
Fonte: OMS — Recomendações de Cuidados Intraparto, 2018
Por que ela deixou de ser recomendada? Porque quando a gente faz esse corte, ele já corresponde a uma laceração de grau 2 — ou seja, a gente já está cortando a musculatura do períneo. E quando a gente deixa o corpo lacerar naturalmente, se for o caso, a maior parte dessas lacerações é grau 1, aonde muitas vezes nem precisa dar ponto! Ou, no máximo, grau 2.

Quais são os graus de laceração perineal no parto?
Quando falamos de laceração no parto, existem 4 graus, e é muito importante que você entenda cada um para perceber por que a episiotomia rotineira não faz sentido, tá?
| Grau | O que atinge | Precisa de sutura? | Frequência |
|---|---|---|---|
| Grau 1 | Apenas pele e mucosa vaginal | Nem sempre — muitas vezes cicatriza sozinha | Mais comum (maioria dos partos) |
| Grau 2 | Musculatura perineal superficial | Sim, com pontos absorvíveis | Comum — equivale à episiotomia |
| Grau 3 | Estende-se até o esfíncter anal | Sim, requer reparo cuidadoso | Rara |
| Grau 4 | Atinge a mucosa retal | Sim, reparo especializado | Muito rara |
Fonte: Royal College of Obstetricians and Gynaecologists (RCOG) — classificação internacional de lacerações obstétricas.
Dica da Pri sobre lacerações
Gente, quando a gente deixa lacerar naturalmente, se for o caso no trabalho de parto, a maior parte dessas lacerações é grau 1. São raras aquelas que evoluem para grau 3 e grau 4, onde ela se estende até o esfíncter anal. E olha que interessante: a episiotomia automaticamente já é grau 2! Ou seja, cortar de rotina coloca você numa posição pior do que deixar o corpo fazer o trabalho dele.

| Aspecto | Laceração espontânea (grau 1-2) | Episiotomia (grau 2 automático) |
|---|---|---|
| Profundidade | Variável — geralmente superficial | Sempre atinge a musculatura |
| Direção do corte | Irregular, segue linhas naturais | Reta, pode se estender facilmente |
| Recuperação | Geralmente mais rápida | Pode ser mais dolorosa e demorada |
| Risco de extensão | Menor quando respeitado o tempo | Pode se estender a grau 3-4 |
| Dor pós-parto | Menor em grau 1 | Dor significativa nos primeiros dias |
| Impacto no assoalho pélvico | Menor quando superficial | Maior por cortar a musculatura |
O que conversar com o seu obstetra sobre episiotomia?
Então, gente, é muito importante você conversar com o seu obstetra para ver se a episiotomia faz parte dos procedimentos rotineiros que ele utiliza no parto. Essa conversa é fundamental para que você se sinta segura e respeitada.
Atenção importante!
Se a episiotomia fizer parte da rotina do seu obstetra, é importante que você, ou mude de obstetra, ou coloque no seu plano de parto que você não tem interesse de fazer episiotomia de rotina. Você tem esse direito, mamãe!
Perguntas essenciais para fazer ao seu obstetra
- "A episiotomia faz parte dos seus procedimentos de rotina no parto?" — Esta é a pergunta mais direta e importante.
- "Qual a sua taxa de episiotomia?" — Um profissional alinhado com as evidências terá uma taxa muito baixa (menos de 10%).
- "Em que situações você considera necessária a episiotomia?" — Espere respostas como: sofrimento fetal agudo, necessidade de abreviar o expulsivo.
- "Você utiliza compressas mornas no períneo durante o expulsivo?" — Isso demonstra prática baseada em evidências.
- "Qual a sua postura sobre posições verticalizadas no parto?" — Profissionais atualizados apoiam a livre movimentação.
- "Qual a taxa de episiotomia da maternidade?" — Dados da instituição revelam muito sobre a conduta da equipe.
Dica da Pri: confiança é tudo!
Gente, eu não estou dizendo para vocês desconfiarem do médico de vocês, tá? Mas é seu direito perguntar. Um profissional que trabalha com evidências vai te receber bem e explicar tudo com transparência. A relação com o seu obstetra precisa ser de confiança mútua. Se você não se sente segura para fazer perguntas, talvez seja hora de repensar essa relação.
Plano de Parto
Monte o seu plano de parto e garanta que suas vontades — incluindo a recusa de episiotomia rotineira — sejam registradas.
O que incluir no plano de parto sobre episiotomia?
O plano de parto é o seu documento de direitos e preferências. Sobre a episiotomia, vale incluir itens claros e objetivos. Aqui vão algumas sugestões de como registrar:
Modelo de registro no plano de parto
- "Não autorizo a realização de episiotomia de rotina."
- "Solicito que sejam utilizadas compressas mornas no períneo durante o expulsivo."
- "Prefiro posições verticalizadas ou lateralizadas durante o expulsivo."
- "Desejo que o expulsivo seja conduzido com respeito ao meu tempo, sem puxos dirigidos."
- "Caso haja laceração espontânea, solicito que a sutura seja realizada com anestesia local adequada."
- "Em caso de necessidade clínica real de episiotomia, solicito que me seja comunicado e explicado antes da realização."
Lembre-se: o plano de parto é um documento vivo. Ele pode ser ajustado durante o pré-natal à medida que você conversa com seu obstetra e se sente mais preparada. O importante é que ele reflita as suas vontades e esteja alinhado com as evidências científicas.

Como prevenir lacerações no parto? As técnicas que funcionam
Agora vem a parte boa, gente! Eu vou ensinar para vocês algumas técnicas para que a gente possa prevenir essa laceração. E a boa notícia é que a maioria dessas técnicas você pode começar durante a gestação, no conforto da sua casa.
Massagem perineal: sua grande aliada a partir de 34 semanas
A massagem perineal é uma das técnicas mais estudadas e eficazes para preparar o períneo para o parto. Ela consiste em uma automassagem na região perineal que ajuda a aumentar a elasticidade dos tecidos, melhorar a circulação local e te dar mais consciência corporal dessa região.
O que diz a ciência sobre massagem perineal
Uma revisão Cochrane com 2.497 mulheres demonstrou que a massagem perineal a partir de 34 semanas pode reduzir em até 16% o risco de episiotomia em primíparas (primeiro parto). Além disso, houve redução significativa na dor perineal pós-parto aos 3 meses.
Fonte: Beckmann MM, Stock OM — Cochrane Database, 2013
- Quando começar: A partir de 34 semanas de gestação.
- Frequência: 1 a 3 vezes por semana, por 5 a 10 minutos.
- Óleo: Use óleo vegetal (amêndoas doces, coco ou girassol) — sem fragrância.
- Posição: Semi-sentada, recostada em almofadas, com os joelhos flexionados.
- Técnica: Inserir o polegar na vagina (~3 cm) e pressionar suavemente para baixo e para os lados, em movimentos de "U", mantendo a pressão por 1-2 minutos até sentir uma leve sensação de estiramento (sem dor).
- Parceiro: O André (ou seu companheiro/a) pode fazer a massagem por você — muitos casais relatam que isso aproxima e fortalece a conexão.

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Passo a passo detalhado com vídeos e ilustrações — tudo o que você precisa saber para começar.
Fisioterapia pélvica: a preparação mais completa que existe
Gente, a fisioterapia pélvica é a minha especialidade, e eu posso dizer com toda a certeza: ela faz toda a diferença na preparação para o parto. A fisioterapia pélvica trabalha três pilares fundamentais do seu assoalho pélvico:
- Consciência corporal: Você aprende a identificar, contrair e — muito importante — relaxar a musculatura do assoalho pélvico. Porque no parto, o que a gente precisa é saber relaxar.
- Força: Fortalecer o assoalho pélvico não é só para "segurar" — é para que ele tenha tonicidade e resistência durante a gestação e recuperação pós-parto.
- Flexibilidade: Um assoalho pélvico flexível permite que o bebê passe pelo canal de parto com menos resistência, reduzindo o risco de lacerações.
Exercícios-chave que eu recomendo na gestação
Na fisioterapia pélvica para gestantes, os exercícios que eu mais trabalho são:
- TPMAP (Treinamento dos Músculos do Assoalho Pélvico): Os famosos "Kegel" — contrações lentas e rápidas, trabalhando resistência e coordenação.
- Báscula pélvica: Movimentos de anteversão e retroversão da pelve, que melhoram a mobilidade e aliviam dor lombar.
- Exercício do Gato-Vaca: Melhora a mobilidade da coluna e da pelve, aliviando tensões e preparando o corpo para as posições de parto.
- Treino de relaxamento perineal: Aprender a "soltar" o períneo — fundamental para o momento do expulsivo.
- Respiração diafragmática: Conexão direta entre diafragma e assoalho pélvico — quando um relaxa, o outro também relaxa.

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Compressas mornas no períneo durante o parto
As compressas mornas na região perineal durante o período expulsivo são uma das técnicas mais simples e eficazes para reduzir lacerações graves. A evidência é forte:
Evidência sobre compressas mornas
Revisão Cochrane (2017) com mais de 15.000 mulheres demonstrou que a aplicação de compressas mornas no períneo durante o segundo estágio do parto pode reduzir significativamente a incidência de lacerações de grau 3 e 4. É uma técnica não invasiva, de baixo custo e que qualquer equipe de parto pode aplicar.
Fonte: Aasheim V, et al. — Cochrane Database, 2017
Posições verticalizadas e liberdade de movimento
A posição em que você pare tem um impacto direto no risco de laceração. Posições verticalizadas (de cócoras, quatro apoios, de joelhos) aumentam a abertura pélvica em até 28% comparadas com a posição deitada de costas (litotomia). Além disso, a gravidade ajuda o bebê a descer, e a pressão no períneo é mais uniforme e gradual.
Dica da Pri: converse sobre as posições de parto
Coloque no seu plano de parto que você deseja ter liberdade de posição durante o expulsivo. Posições verticalizadas, lateralizadas ou de quatro apoios distribuem melhor a pressão no períneo e podem reduzir a necessidade de qualquer intervenção. E lembre: a melhor posição é a que o seu corpo pedir!
Puxos fisiológicos (sem puxos dirigidos)
Os puxos dirigidos — quando a equipe pede para você "fazer força" prendendo o ar (manobra de Valsalva) — podem aumentar a pressão sobre o períneo e elevar o risco de laceração. Os puxos fisiológicos, em que você segue o impulso natural do seu corpo, são mais seguros e eficazes. Como eu sempre falo: essa força vem naturalmente — é que nem vomitar, você não consegue segurar!
Cuidado com a manobra de Valsalva!
A manobra de Valsalva (prender o ar e fazer força para baixo) no expulsivo está associada a maior risco de laceração perineal e pode comprometer a oxigenação do bebê. Prefira os puxos espontâneos, respirando normalmente e deixando o corpo guiar o momento. Confie no seu útero — ele sabe o que fazer.
Checklist completo: tudo o que você pode fazer para proteger o seu períneo
Aqui vai um resumo de todas as estratégias que a ciência apoia para prevenir lacerações e evitar a episiotomia desnecessária:
| Quando | O que fazer | Evidência |
|---|---|---|
| Pré-natal (desde o início) | Fisioterapia pélvica com profissional especializado | Fortalece e flexibiliza o assoalho pélvico |
| A partir de 34 semanas | Massagem perineal 1-3x/semana | Cochrane 2013: reduz episiotomia em 16% (primíparas) |
| Pré-natal | Exercícios de relaxamento perineal + respiração | Prepara o períneo para o expulsivo |
| Pré-natal | Conversar com o obstetra sobre episiotomia | Alinhamento de expectativas e práticas |
| Pré-natal | Registrar no plano de parto a recusa de episiotomia rotineira | Direito da gestante (OMS) |
| Durante o parto (expulsivo) | Compressas mornas no períneo | Cochrane 2017: reduz lacerações grau 3-4 |
| Durante o parto (expulsivo) | Posições verticalizadas ou lateralizadas | Aumenta abertura pélvica em até 28% |
| Durante o parto (expulsivo) | Puxos fisiológicos (sem Valsalva) | Reduz pressão sobre o períneo |
| Durante o parto (expulsivo) | Proteção perineal ativa pelo profissional | Controle da velocidade de coroamento |
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Seus direitos como gestante: o que a lei diz sobre episiotomia?
No Brasil, toda gestante tem o direito de ser informada e consultada sobre qualquer procedimento realizado durante o parto. A episiotomia, quando feita sem consentimento ou indicação clínica, pode ser considerada violência obstétrica.
Seus direitos no parto
- Direito à informação: Todo procedimento deve ser explicado antes de ser realizado.
- Direito ao consentimento informado: Você precisa autorizar qualquer intervenção no seu corpo.
- Direito ao plano de parto: Conforme recomendação da OMS, o plano de parto é um instrumento de comunicação entre a gestante e a equipe.
- Direito ao acompanhante: Lei nº 11.108/2005 garante a presença de acompanhante durante todo o parto.
- Direito de recusar procedimentos: Incluindo episiotomia rotineira, desde que não haja indicação clínica de emergência.
Gente, eu não quero que vocês fiquem com medo, tá? O objetivo é que vocês estejam informadas e empoderadas. Quando você sabe os seus direitos e se prepara para o parto, você se torna protagonista da sua história. E é isso que eu quero pra cada uma de vocês.
Perguntas frequentes sobre episiotomia
Reunimos as dúvidas que vocês mais me fazem sobre episiotomia, laceração perineal e prevenção — respondidas com base em evidências científicas e com muito carinho.
Referências científicas
- OMS — Recomendações da OMS: cuidados intraparto para uma experiência de parto positiva (2018).
- Jiang H, et al. — Selective versus routine use of episiotomy for vaginal birth (Cochrane, 2017).
- Beckmann MM, Stock OM — Antenatal perineal massage for reducing perineal trauma (Cochrane, 2013).
- Aasheim V, et al. — Perineal techniques during the second stage of labour for reducing perineal trauma (Cochrane, 2017).
- ACOG — Practice Bulletin: Prevention and Management of Obstetric Lacerations at Vaginal Delivery (2016, reafirmado).
- FEBRASGO — Protocolo de Assistência ao Parto Normal (Protocolo 101).
- Ministério da Saúde do Brasil — Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal.
- Royal College of Obstetricians and Gynaecologists (RCOG) — The Management of Third- and Fourth-Degree Perineal Tears (Green-top Guideline No. 29, 2015).
- Lawrence A, et al. — Maternal positions and mobility during first stage labour (Cochrane, 2013).

Priscilla Valadares
CREFITO-SP 123456 · Fisioterapeuta Obstétrica, Osteopata e Doula
Especialista em saúde da mulher e assoalho pélvico, criadora do método PPRRI (Pensamento, Postura, Respiração, Relaxamento e Imaginação) e do portal Gravidez com Amor. Minha missão é empoderar mulheres com conhecimento baseado em evidências para que vivam uma gestação, parto e pós-parto com confiança, segurança e muito amor.
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Este conteúdo possui caráter informativo e educacional. Não substitui a consulta médica presencial. Em caso de dúvidas ou sintomas incomuns, consulte sempre sua equipe obstétrica. Cada gestação é única. Resolução CFM nº 2.336/2023.
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Priscilla Valadares